Larissa Bastos

Defesa Civil realiza trabalho de conscientização nas áreas de risco (Foto:Larissa Bastos)
Da "varanda", Ademir Júnior da Silva, 53 anos, tem a visão completa da Lagoa Mundaú. Água, verde e natureza que se misturam ao sofrimento diário de quem vive em uma das muitas encostas do bairro do Mutange, em Maceió. A bela vista não faz com que ele esqueça os problemas diários - a fome, o desemprego e, principalmente, a casa que, aos poucos, escorrega em direção ao barranco que teima em desabar.
Ademir é um dos muitos que montaram moradia em áreas de risco da capital alagoana. Segundo a Associação de Moradores do Mutange, são cerca de 300 pessoas no local residindo em condições de real perigo - quase 10% da população do bairro, que soma perto de quatro mil. No raio-X da cidade, porém, o número é ainda mais assustador: pelos cálculos do Governo Federal, 20 mil famílias moram em zonas de alto risco.
Os dados, entretanto, são do ano de 2008 e, de lá para cá, nenhum outro estudo foi feito para mensurar a quantidade de maceioenses vivendo nas 76 localidades consideradas perigosas pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil - a classificação varia de risco baixo a muito alto. As áreas são divididas em sete complexos e englobam diversas regiões da cidade.
De acordo com o coordenador do órgão, Dinário Lemos, os pontos estão localizados nos bairros do Benedito Bentes, Chã da Jaqueira e Tabuleiro do Martins, na Orla Lagunar - no trecho que compreende da Vila Redenção (mais conhecida como Favela do Bolão) até Fernão Velho -, no Vale do Reginaldo, separado em Reginaldo de Baixo e de Cima, e no Litoral Norte de Maceió.
"Não sei se é um número alto, pois teríamos que ver como está a situação do restante do País. Maceió tem uma particularidade, que é não ter morros e, sim, grotas e é preciso um estudo, inclusive geológico, para saber se isso propicia mais deslizamentos. São 575 pontos entre risco baixo, médio, alto e muito alto nessas 76 localidades", afirma o gestor.
Ele destaca que a Prefeitura vem atuando nesses locais, mas bem mais no campo paliativo, com educação ambiental e limpezas. Ações que pretendem minimizar acidentes no período de chuvas e, quem sabe, tentar proporcionar melhores condições de vida a quem convive diariamente com o medo da chuva.
"Temos feito um trabalho de educação ambiental, implantamos a Operação Inverno, que é quando fazemos limpeza de canais, desassoreamento de riachos, podas nas calhas de riachos, como o que corta o Complexo do Reginaldo, que tem várias grotas. São ações que fazemos para minimizar acidentes", afirma ele, que acrescenta ter chovido pouco esse ano: apenas 500 dos 800 milímetros esperados para a quadra chuvosa.

Ademir mostra área de risco onde reside (Foto:Larissa Bastos)
Transferir quem vive nas áreas de risco, diz ele, não é uma possibilidade. "Um projeto para retirar não existe. Retiramos em alguns pontos localizados, quando tem uma casa rachada, por exemplo. Mas, onde foi invadido, não temos como tirar as pessoas. Ninguém vai chegar em uma comunidade que tem 10, 15 mil pessoas e tirar o povo, não existe isso. Temos que criar situações para que as pessoas convivam com segurança".
Moradores têm medo
Enquanto isso, moradores como Ademir vão tentando se equilibrar pelas barreiras maceioenses. Trabalhando na área de serviços gerais "quando aparece um bico", ele mostra a casa de taipa toda remendada - arames, pedaços de pau, lonas e até um colchão foram usados na esperança de manter a moradia de pé - e diz que, quando chove, tem medo até mesmo de dormir.
"Vou fazer o que? Não tenho condição de ir pra outro lugar. Com medo a gente fica, porque se isso arriar [o esteio que segura a casa], ela arreia toda. Olha como é que tá! Quando chove à noite, não durmo. E quando venho dormir já é tarde, mas é um alívio, porque se morrer já tô (sic) dormindo. É complicado, complicado mesmo", conta ele, que acabara de se recuperar de uma virose que o deixou vários dias na cama.
Andando pela comunidade, não é difícil achar quem compartilhe do sentimento de Ademir. Morando um pouco mais abaixo, a aposentada Maria de Oliveira, de 62 anos, revela que, junto com os primeiros pingos de chuva, chega à comunidade também o pavor pelo que pode acontecer - e pelas lembranças do que já foi vivido. No Mutange desde que nasceu, ela afirma ter perdido a conta de quantas barreiras já desabaram.
A idosa destaca que já chegou a fica uma semana fora da própria residência com receio de "morrer dormindo" ao lado do filho, Everton, de 22 anos. E, com o temor, outra sensação - a descrença - também fica clara na expressão da simpática senhora que, cuidadosa, limpava a entrada da casa em meio ao chuvisco que começava a cair.
"Já desabou muita barreira na minha casa, tirei muitas caçambas de barro. Quando acontece isso, chamo os amigos para me ajuda. Todo ano é a mesma coisa e não vejo nenhuma melhoria. Nunca sofri acidente dentro de casa porque quando começa a chover a gente corre. Vai pra casa de família, amigo. Mas aqui nessa casa não dá pra ficar. Quando começa a chover é só medo. Não durmo. Prefiro ficar a noite acordada".
O filho dela, aliás, sonha com o dia em que deixará para trás o lugar onde também nasceu. O destino pretendido é logo ali ao lado, o bairro do Bebedouro. "Moro aqui desde criança, mas trabalho, estou me organizando para sair daqui. Desde que me entendo de gente que cai barro aqui, todo ano desce barreira. Já invadiu a nossa casa, chegou até metade da geladeira", expõe.
Mais alguns passos adiante pelos estreitos caminhos da localidade, mais alguns dramas. É o caso de Manuel Oliveira, 47 anos, morador do bairro há 11. Em dezembro do ano passado, ele escorregou e caiu de uma das barreiras. Desde então, aguarda cirurgia para consertar o fêmur, quebrado durante o acidente, e voltar a trabalhar - em todo esse tempo ele tem dependido da ajuda que aparece.
"Me desequilibrei no degrau e fui parar lá embaixo. Quebrei o fêmur, fiquei 57 dias de cama. Ia fazer cirurgia, mas ainda não fiz. O médico disse que eu tinha que ficar internado quatro meses até minha perna cicatrizar, mas eu desisti e vim embora do jeito que tava. Dói muito, tô até sem trabalhar, porque trabalho de pedreiro. Tô parado, né? Dependendo da família, que fica atrás de um canto e de outro para conseguir as coisas".
Na casa, que nunca desabou, mas vive alagada toda vez que chove, mora com a esposa e mais quatro filhos. O homem, que se acostumou a ver da janela o dia a dia a comunidade, espera ficar bom logo para voltar a providenciar o sustento. "Trabalho apareceu, mas eu não aguento, não posso abaixar. O povo disse que depois da cirurgia dá pra voltar, mas depois de muito tempo, um ano. Até lá seja o que Deus quiser".
Projeto pretende catalogar áreas
Há cerca de seis meses a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) começou um trabalho de mapeamento da área do Mutange. O objetivo do projeto, que engloba diversas áreas da instituição federal, é entender o motivo dos constantes desabamentos na região e, mais que isso, montar uma base de dados de quem mora nos pontos de risco do bairro, ajudando a providenciar soluções.
Segundo o coordenador da Defesa Civil, um termo de cooperação técnica - ainda não assinado - está para ser firmado com a Prefeitura. "Serão várias áreas, geologia, engenharia, assistência social, sociologia. É uma cadeia grande de pesquisadores que vai fazer detalhadamente o cadastro econômico-social daquelas famílias, a parte geológica da região e o estudo de viabilização de drenagem", explica Dinário.
O gestor destaca que, a partir daí, as famílias terão documentos com informações da área onde moram - do tipo do solo ao volume de água aguentado por ele. O mesmo vale para a Defesa Civil, que terá um levantamento mais atualizado e detalhado. Além disso, a iniciativa prevê ainda o plantio nos locais de encosta, tentando minimizar os desabamentos.
"Já vieram várias equipes de engenheiros, técnicos, que estão fazendo a análise do barro. Eles estão querendo saber porque cai mais em um local que em outro. Depois disso, vão fazer o planejamento para entregar à Prefeitura para fazer o plantio de algum material, que não seja coqueiro, mangueira e essas coisas, que ajude", diz José Roberto, atual presidente do Núcleo de Defesa Civil Comunitária do Mutange.
Ele é a ligação entre o órgão municipal e a comunidade e uma espécie de protetor dos moradores do local. Por onde passa, é cumprimentado, mas também cobrado para que mais ações saiam do papel. "Conheço todo mundo, porque quando tá chovendo visito todo mundo, seja com as autoridades ou sozinho. Tem que subir o morro. Antes não precisava nem o morador chamar. Quando começava a chover já pegava o guarda-chuva e ia, mas agora que eu tô doente.. Sempre fiz esse trabalho porque fico preocupado".
No Núcleo, que fica dentro da Associação de Moradores, ele controla um pluviômetro e avisa à população local sobre o risco de chuvas. Também coordena a distribuição de lonas, mandadas pela Prefeitura para que sejam colocadas nas barreiras a fim de reduzir as consequências de deslizamentos, e faz o trabalho de conscientização para que o mato não seja arrancado das barreiras.
"A gente faz conscientização, pede pra ter cuidado, não jogar lixo na barreira, não cortar. Quando cai uma barreira, tem que ver porque isso, porque se ela tiver coberta de mato, não tiver infiltração, não vai arriar. A da minha casa tem mais de 20 metros, moro há 17 anos, e nunca caiu uma lata de barro. Tô sempre de olho. A partir do momento que arranca o mato, ela fica mais suscetível".

Chuvas são monitoradas (Foto:Larissa Bastas)
Ele diz ainda que, para tirar as famílias do local onde moram, seria preciso levá-las para perto. "Cadastro sempre é feito, mas tirar o morador que nasceu aqui para colocar no Benedito Bentes... Jamais ele vai querer. Aqui é Centro, tem o VLT, ônibus perto. Teria que ser um lugar aqui por perto. Só que todos os projetos é com destino o Benedito Bentes. Eu acho que tem como conseguir uns terrenos por aqui", opina.
Para Ademir da Silva, porém, qualquer lugar seria válido para sair do casebre - cheio de fios expostos, taipa caindo aos pedaços - onde vive em risco iminente. "O senhor já pensou em sair daqui?", pergunta a reportagem. "E ir pra onde? Pra ponte? Só se for pra debaixo da ponte. Só assim com essa minha condição", responde ele, já sem esperanças.
Defesa Civil realiza trabalho de conscientização nas áreas de risco (Foto:Larissa Bastos)
Da "varanda", Ademir Júnior da Silva, 53 anos, tem a visão completa da Lagoa Mundaú. Água, verde e natureza que se misturam ao sofrimento diário de quem vive em uma das muitas encostas do bairro do Mutange, em Maceió. A bela vista não faz com que ele esqueça os problemas diários - a fome, o desemprego e, principalmente, a casa que, aos poucos, escorrega em direção ao barranco que teima em desabar.
Ademir é um dos muitos que montaram moradia em áreas de risco da capital alagoana. Segundo a Associação de Moradores do Mutange, são cerca de 300 pessoas no local residindo em condições de real perigo - quase 10% da população do bairro, que soma perto de quatro mil. No raio-X da cidade, porém, o número é ainda mais assustador: pelos cálculos do Governo Federal, 20 mil famílias moram em zonas de alto risco.
Os dados, entretanto, são do ano de 2008 e, de lá para cá, nenhum outro estudo foi feito para mensurar a quantidade de maceioenses vivendo nas 76 localidades consideradas perigosas pela Coordenadoria Municipal de Defesa Civil - a classificação varia de risco baixo a muito alto. As áreas são divididas em sete complexos e englobam diversas regiões da cidade.
De acordo com o coordenador do órgão, Dinário Lemos, os pontos estão localizados nos bairros do Benedito Bentes, Chã da Jaqueira e Tabuleiro do Martins, na Orla Lagunar - no trecho que compreende da Vila Redenção (mais conhecida como Favela do Bolão) até Fernão Velho -, no Vale do Reginaldo, separado em Reginaldo de Baixo e de Cima, e no Litoral Norte de Maceió.
"Não sei se é um número alto, pois teríamos que ver como está a situação do restante do País. Maceió tem uma particularidade, que é não ter morros e, sim, grotas e é preciso um estudo, inclusive geológico, para saber se isso propicia mais deslizamentos. São 575 pontos entre risco baixo, médio, alto e muito alto nessas 76 localidades", afirma o gestor.
Ele destaca que a Prefeitura vem atuando nesses locais, mas bem mais no campo paliativo, com educação ambiental e limpezas. Ações que pretendem minimizar acidentes no período de chuvas e, quem sabe, tentar proporcionar melhores condições de vida a quem convive diariamente com o medo da chuva.
"Temos feito um trabalho de educação ambiental, implantamos a Operação Inverno, que é quando fazemos limpeza de canais, desassoreamento de riachos, podas nas calhas de riachos, como o que corta o Complexo do Reginaldo, que tem várias grotas. São ações que fazemos para minimizar acidentes", afirma ele, que acrescenta ter chovido pouco esse ano: apenas 500 dos 800 milímetros esperados para a quadra chuvosa.
Ademir mostra área de risco onde reside (Foto:Larissa Bastos)
Transferir quem vive nas áreas de risco, diz ele, não é uma possibilidade. "Um projeto para retirar não existe. Retiramos em alguns pontos localizados, quando tem uma casa rachada, por exemplo. Mas, onde foi invadido, não temos como tirar as pessoas. Ninguém vai chegar em uma comunidade que tem 10, 15 mil pessoas e tirar o povo, não existe isso. Temos que criar situações para que as pessoas convivam com segurança".
Moradores têm medo
Enquanto isso, moradores como Ademir vão tentando se equilibrar pelas barreiras maceioenses. Trabalhando na área de serviços gerais "quando aparece um bico", ele mostra a casa de taipa toda remendada - arames, pedaços de pau, lonas e até um colchão foram usados na esperança de manter a moradia de pé - e diz que, quando chove, tem medo até mesmo de dormir.
"Vou fazer o que? Não tenho condição de ir pra outro lugar. Com medo a gente fica, porque se isso arriar [o esteio que segura a casa], ela arreia toda. Olha como é que tá! Quando chove à noite, não durmo. E quando venho dormir já é tarde, mas é um alívio, porque se morrer já tô (sic) dormindo. É complicado, complicado mesmo", conta ele, que acabara de se recuperar de uma virose que o deixou vários dias na cama.
Andando pela comunidade, não é difícil achar quem compartilhe do sentimento de Ademir. Morando um pouco mais abaixo, a aposentada Maria de Oliveira, de 62 anos, revela que, junto com os primeiros pingos de chuva, chega à comunidade também o pavor pelo que pode acontecer - e pelas lembranças do que já foi vivido. No Mutange desde que nasceu, ela afirma ter perdido a conta de quantas barreiras já desabaram.
A idosa destaca que já chegou a fica uma semana fora da própria residência com receio de "morrer dormindo" ao lado do filho, Everton, de 22 anos. E, com o temor, outra sensação - a descrença - também fica clara na expressão da simpática senhora que, cuidadosa, limpava a entrada da casa em meio ao chuvisco que começava a cair.
"Já desabou muita barreira na minha casa, tirei muitas caçambas de barro. Quando acontece isso, chamo os amigos para me ajuda. Todo ano é a mesma coisa e não vejo nenhuma melhoria. Nunca sofri acidente dentro de casa porque quando começa a chover a gente corre. Vai pra casa de família, amigo. Mas aqui nessa casa não dá pra ficar. Quando começa a chover é só medo. Não durmo. Prefiro ficar a noite acordada".
O filho dela, aliás, sonha com o dia em que deixará para trás o lugar onde também nasceu. O destino pretendido é logo ali ao lado, o bairro do Bebedouro. "Moro aqui desde criança, mas trabalho, estou me organizando para sair daqui. Desde que me entendo de gente que cai barro aqui, todo ano desce barreira. Já invadiu a nossa casa, chegou até metade da geladeira", expõe.
Mais alguns passos adiante pelos estreitos caminhos da localidade, mais alguns dramas. É o caso de Manuel Oliveira, 47 anos, morador do bairro há 11. Em dezembro do ano passado, ele escorregou e caiu de uma das barreiras. Desde então, aguarda cirurgia para consertar o fêmur, quebrado durante o acidente, e voltar a trabalhar - em todo esse tempo ele tem dependido da ajuda que aparece.
"Me desequilibrei no degrau e fui parar lá embaixo. Quebrei o fêmur, fiquei 57 dias de cama. Ia fazer cirurgia, mas ainda não fiz. O médico disse que eu tinha que ficar internado quatro meses até minha perna cicatrizar, mas eu desisti e vim embora do jeito que tava. Dói muito, tô até sem trabalhar, porque trabalho de pedreiro. Tô parado, né? Dependendo da família, que fica atrás de um canto e de outro para conseguir as coisas".
Na casa, que nunca desabou, mas vive alagada toda vez que chove, mora com a esposa e mais quatro filhos. O homem, que se acostumou a ver da janela o dia a dia a comunidade, espera ficar bom logo para voltar a providenciar o sustento. "Trabalho apareceu, mas eu não aguento, não posso abaixar. O povo disse que depois da cirurgia dá pra voltar, mas depois de muito tempo, um ano. Até lá seja o que Deus quiser".
Projeto pretende catalogar áreas
Há cerca de seis meses a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) começou um trabalho de mapeamento da área do Mutange. O objetivo do projeto, que engloba diversas áreas da instituição federal, é entender o motivo dos constantes desabamentos na região e, mais que isso, montar uma base de dados de quem mora nos pontos de risco do bairro, ajudando a providenciar soluções.
Segundo o coordenador da Defesa Civil, um termo de cooperação técnica - ainda não assinado - está para ser firmado com a Prefeitura. "Serão várias áreas, geologia, engenharia, assistência social, sociologia. É uma cadeia grande de pesquisadores que vai fazer detalhadamente o cadastro econômico-social daquelas famílias, a parte geológica da região e o estudo de viabilização de drenagem", explica Dinário.
O gestor destaca que, a partir daí, as famílias terão documentos com informações da área onde moram - do tipo do solo ao volume de água aguentado por ele. O mesmo vale para a Defesa Civil, que terá um levantamento mais atualizado e detalhado. Além disso, a iniciativa prevê ainda o plantio nos locais de encosta, tentando minimizar os desabamentos.
"Já vieram várias equipes de engenheiros, técnicos, que estão fazendo a análise do barro. Eles estão querendo saber porque cai mais em um local que em outro. Depois disso, vão fazer o planejamento para entregar à Prefeitura para fazer o plantio de algum material, que não seja coqueiro, mangueira e essas coisas, que ajude", diz José Roberto, atual presidente do Núcleo de Defesa Civil Comunitária do Mutange.
Ele é a ligação entre o órgão municipal e a comunidade e uma espécie de protetor dos moradores do local. Por onde passa, é cumprimentado, mas também cobrado para que mais ações saiam do papel. "Conheço todo mundo, porque quando tá chovendo visito todo mundo, seja com as autoridades ou sozinho. Tem que subir o morro. Antes não precisava nem o morador chamar. Quando começava a chover já pegava o guarda-chuva e ia, mas agora que eu tô doente.. Sempre fiz esse trabalho porque fico preocupado".
No Núcleo, que fica dentro da Associação de Moradores, ele controla um pluviômetro e avisa à população local sobre o risco de chuvas. Também coordena a distribuição de lonas, mandadas pela Prefeitura para que sejam colocadas nas barreiras a fim de reduzir as consequências de deslizamentos, e faz o trabalho de conscientização para que o mato não seja arrancado das barreiras.
"A gente faz conscientização, pede pra ter cuidado, não jogar lixo na barreira, não cortar. Quando cai uma barreira, tem que ver porque isso, porque se ela tiver coberta de mato, não tiver infiltração, não vai arriar. A da minha casa tem mais de 20 metros, moro há 17 anos, e nunca caiu uma lata de barro. Tô sempre de olho. A partir do momento que arranca o mato, ela fica mais suscetível".
Chuvas são monitoradas (Foto:Larissa Bastas)
Ele diz ainda que, para tirar as famílias do local onde moram, seria preciso levá-las para perto. "Cadastro sempre é feito, mas tirar o morador que nasceu aqui para colocar no Benedito Bentes... Jamais ele vai querer. Aqui é Centro, tem o VLT, ônibus perto. Teria que ser um lugar aqui por perto. Só que todos os projetos é com destino o Benedito Bentes. Eu acho que tem como conseguir uns terrenos por aqui", opina.
Para Ademir da Silva, porém, qualquer lugar seria válido para sair do casebre - cheio de fios expostos, taipa caindo aos pedaços - onde vive em risco iminente. "O senhor já pensou em sair daqui?", pergunta a reportagem. "E ir pra onde? Pra ponte? Só se for pra debaixo da ponte. Só assim com essa minha condição", responde ele, já sem esperanças.
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