Filme de Rafhael Barbosa e Werner Salles estreia esta semana nos cinemas e nas plataformas digitais.
Nas religiões afro-diaspóricas, como a Umbanda e o Candomblé, Cavalo é o nome dado aos praticantes que são capazes de receber entidades em seus corpos. Foi o simbolismo desse rito e a relação dele com a identidade alagoana que inspiraram ‘Cavalo’, filme de Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti, que estreia nos cinemas e nas plataformas digitais no dia 12 de agosto.
A estreia de Cavalo está cercada por marcos para o cinema alagoano. Trata-se do primeiro longa-metragem local produzido por meio de um edital de fomento e do primeiro filme genuinamente alagoano a estrear no circuito comercial brasileiro em quase 40 anos. Além disso, o longa chega às telas do Brasil no ano em que Alagoas celebra o centenário do audiovisual e também comemora uma década desde o lançamento do primeiro edital público no estado.
Antes da estreia nacional, os alagoanos poderão conferir o longa nos cinemas e conversar com os diretores e elenco. Serão três sessões especiais, duas em Maceió: terça (10), no Cinesystem (Parque Shopping Maceió), às 21h; e quinta-feira (12), no Centro Cultural Arte Pajuçara, às 20h15. A sessão em Arapiraca será na quarta-feira (11), às 21h, no Cinesystem do Arapiraca Garden Shopping.
A partir do dia 12 de agosto, o público brasileiro poderá conferir o filme alagoano nas telonas, em diversas salas de cinema. Além disso, a produção, lançada nacionalmente pela Descoloniza Filmes e pela La Ursa Cinematográfica, chega também em grandes plataformas digitais, como Apple TV, Google Play, Vivo Play, Sky Play, Now e YouTube.
“É uma realização pessoal muito grande. Trabalhar com cinema é um sonho desde que eu tenho 12 anos, um sonho de infância”, conta Rafhael Barbosa, um dos realizadores. Nascido e criado em Arapiraca, ele lembra que não havia cinema na cidade interiorana, mas era isso que fazia seus olhos brilharem. “Venho de uma família pobre, filho de um militar e de uma costureira. Mesmo assim, ousei sonhar em fazer cinema. Tive que quebrar muitas barreiras para chegar nessa realização."
Cavalo marca a estreia na direção de longas de dois dos mais ativos realizadores alagoanos. Com trajetórias distintas no cinema, os diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles têm desenvolvido uma parceria desde o documentário “Interiores ou 400 Anos de Solidão”, dirigido por Werner em 2012. “Cavalo”, o primeiro longa de ambos, soma as experiências de Rafhael em curtas de ficção (“KM 58”, “O Que Lembro, Tenho”), e de Werner (“Imagem Peninsular de Lêdo Ivo”, “História Brasileira da Infâmia - Parte 1”) em telefilmes documentais. Atualmente os diretores trabalham em seus primeiros longas de ficção, “Olhe para Mim”, de Barbosa, e “Edifício Miami”, de Salles. Na sequência, os dois irão dirigir o longa-metragem de animação “Utopia”, novamente em co-direção.
O filme também exibe a maturidade do audiovisual alagoano enquanto setor. Com o longa em cartaz e mais de 100 filmes em produção, o cinema alagoano desponta no circuito nacional. “Para o audiovisual alagoano é um marco importante. Para chegar nisso, houve um caminho de construção coletiva, tive que me aliar a outras pessoas que também tinham esse sonho, para que a gente pudesse solidificar um movimento de cinema em Alagoas. Estamos conseguindo, com muita luta, consolidar políticas públicas”, lembra Rafhael Barbosa.
Em sua primeira década com políticas públicas e investimentos mais robustos no audiovisual, Alagoas chegou nos festivais de Gramado, Havana, Roterdã, Tiradentes e até no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Cavalo foi contemplado no Prêmio Guilherme Rogato, da prefeitura de Maceió, com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual - FSA para sua realização.
“É um momento de muita visibilidade. Nos últimos anos, vimos muitos curtas se destacarem e chegarem em lugares onde não tínhamos chegado ainda. Mas com um longa-metragem, que tem uma outra característica, mais comercial, a gente chega em um outro patamar de afirmação no circuito nacional”, diz Werner.
"Acho isso muito simbólico. Esse momento que a gente tá vivendo agora é reflexo das políticas públicas. As políticas públicas transformaram o nosso setor. E Alagoas virou um exemplo para o Brasil de como o investimento da Agência Nacional de Cinema e do Fundo Setorial do Audiovisual se reflete em resultados quando há uma descentralização, um fomento às cenas regionais, tirando esse histórico de o investimento estar sempre centralizado no eixo Rio-São Paulo. Temos o centenário que marca o pioneirismo de Guilherme Rogato e também nossa primeira década de editais”, completa Barbosa.
“A INTUIÇÃO FOI NOSSO PRINCIPAL DISPOSITIVO”
Além de uma das realizações mais importantes do audiovisual alagoano, Cavalo, o filme em si, é outra conquista: artística, histórica, estética. Elogiado pela crítica e com 29 seleções em festivais nacionais e internacionais, o filme alagoano chega às telonas com fama de “surpreendente”, “com cenas inesquecíveis”, “necessário” - para citar somente alguns dos elogios.
“Um filme-dança que investiga de uma maneira muito original as pulsões da religiosidade e da cultura brasileira, de maneira que não se costuma ver em documentários sobre o tema”, disse o ator Matheus Nachtergaele, após conferir uma sessão especial do filme no circuito Penedo de Cinema.
O cineasta alagoano Cacá Diegues também comentou sobre Cavalo. “Fiquei impressionado com a ausência de retórica e de demagogia em sua narrativa. Além de pura beleza e da qualidade técnica. Vários momentos me emocionaram, o filme me encantou geral. As cenas finais, quase sempre sob a chuva, são inesquecíveis."
A trama acompanha sete jovens artistas negros em seus processos criativos, que são provocados a um mergulho em suas ancestralidades. Compõem o elenco Alexandrea Constantino, Evez Roc, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum, Leonardo Doullennerr, Roberto Maxwell e Sara de Oliveira. O grupo foi selecionado após um teste de elenco, e passou a conviver num intenso processo de preparação. Na proposta de criação coletiva, os protagonistas foram provocados a construir performances inspiradas pelo arquétipo do cavalo e suas muitas simbologias. Performance, dança e rito se entrecortam em três eixos narrativos.
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| Diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles comemoram parceria e anunciam que preparam longas individuais - Foto: Divulgação |


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